O que teve início com uma simples caixa de som no Parque Ibirapuera acabou se consolidando como um dos coletivos culturais mais reconhecidos do forró em São Paulo. Há mais de 15 anos, o Forró dos Amigos junta gente em espaços públicos da cidade com uma proposta que ultrapassa a ideia de “só dançar”.
Idealizado pelo fundador Vanderson Bezerra, o projeto nasceu de um desejo direto: rever amigos e começar o ano ao som do forró. Com o tempo, o encontro deixou de ser pontual, ganhou adesão e se tornou uma comunidade.
“Ele pegou uma caixinha de som e foi para o Ibirapuera reunir alguns forrozeiros, reencontrar amigos. O intuito sempre foi reunir pessoas em prol de um bem comum, que era ajudar na saúde mental, usando o forró como válvula de escape”, conta Edu Alves, um dos fundadores e produtores do coletivo, ao lado de Simone Araújo, Amanda Labanca e Claudiney Fiuza.
Atualmente, a iniciativa sustenta uma perspectiva terapêutica sobre a dança, encarando o forró como um meio de socialização, de acolhimento emocional e de enfrentamento da ansiedade e da depressão.
A dança como espaço de cuidado
Bem antes de conversas sobre saúde mental ganharem espaço nas redes sociais, o Forró dos Amigos já colocava em primeiro plano temas como afeto, convivência e presença em grupo.
Nos encontros, dançar é o começo: serve para aproximar pessoas, criar laços e reforçar o sentimento de comunidade. Entre passos de forró pé de serra, aulas abertas e apresentações musicais, o que se forma ali também é um território de pertencimento.
A plateia é variada, mas em sua maioria composta por pessoas de 30 a 50 anos. Muita gente chega desacompanhada e, com o tempo, constrói amizades que permanecem dentro do coletivo.
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Ocupando a cidade através da cultura
Com o passar dos anos, o projeto precisou se deslocar por diferentes áreas públicas da capital paulista.
Depois de começar no Parque Ibirapuera, o coletivo ocupou o Parque da Juventude, no antigo Carandiru, permaneceu por anos no Largo da Batata e, mais recentemente, promoveu encontros na Avenida Paulista.
Cada mudança veio na esteira de restrições ou proibições relacionadas à ocupação do espaço público e ao uso de som. Ainda assim, mesmo com os entraves, o grupo seguiu ativo e circulando pela cidade.
“Nós somos um dos primeiros coletivos de rua se não o primeiro de forró aqui de São Paulo. O nosso objetivo sempre foi ocupar espaços públicos para criar conexão entre as pessoas”, afirma Edu.
No momento, o grupo busca viabilizar a volta dos eventos ao Largo da Batata, em Pinheiros.
Um projeto movido pela comunidade
Apesar do alcance cultural e social, o Forró dos Amigos nunca teve à disposição grandes estruturas de financiamento.
Por muitos anos, os custos dos encontros foram assumidos pelos próprios organizadores. Em algumas edições, a verba obtida com chapelaria, venda de água ou pequenas contribuições do público ajudava a cobrir aluguel de som, tendas e a logística.
“O projeto sempre foi muito difícil de manter. A gente não vive do Forró dos Amigos. É um coletivo criado com recurso próprio, movido pela vontade de espalhar o forró e criar encontros”, diz Edu.
Mesmo sem apoio contínuo, o coletivo impulsionou um ecossistema ligado ao forró, contribuindo para que bandas, DJs e professores de dança conquistassem mais visibilidade em São Paulo.
Forró, solidariedade e ação social
Os encontros do coletivo também passaram a funcionar como pontos de arrecadação solidária.
Em cada edição pública, uma ONG diferente é convidada a participar. O público colabora levando 1 kg de alimento, que depois é encaminhado para as instituições parceiras.
“A galera do forró é muito do bem. O pessoal participa, doa alimento, ajuda de verdade”, conta Edu.
Além disso, o coletivo tem articulado uma rede de parceiros e benefícios para fortalecer pequenos empreendedores ligados ao universo do forró, incluindo moda, gastronomia e cultura popular nordestina.
A força nordestina em São Paulo
Para Edu, sustentar o forró em São Paulo também passa por reconhecer a presença histórica da cultura nordestina na cidade.
“São Paulo é um berço nordestino. Se a gente não movimenta o forró, a gente vai matando uma necessidade de um público que está aqui dentro de de São Paulo e que enxerga São Paulo como um como uma extensão da sua região, o Nordeste”, afirma.
Com influência direta de nomes como Dominguinhos e Luiz Gonzaga, o coletivo preserva o forró pé de serra tradicional e, ao mesmo tempo, abre espaço para bandas novas e artistas contemporâneos.
Muito além da dança
Hoje, o Forró dos Amigos também promove ações em unidades do SESC, em empresas e em projetos sociais, oferecendo oficinas e encontros voltados ao bem-estar e à integração.
No ambiente corporativo, a proposta é usar a dança como ferramenta para estimular socialização, autoestima, resiliência e competências emocionais.
“A dança aproxima as pessoas num momento em que todo mundo vive correndo. Ela ajuda a desenvolver sensibilidades que muitas vezes ficam esquecidas no dia a dia”, resume Edu.
Mais do que um baile, o Forró dos Amigos se tornou uma rede de apoio construída a partir do encontro, da música e do cuidado coletivo.
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