Pesquisadores descobriram que Mohenjo-daro, antiga cidade localizada no que hoje é o sul do Paquistão, é mais antiga do que se imaginava: uma grande muralha urbana foi datada de aproximadamente 2700 a 2600 a.C..
Essa data mais recuada empurra para trás no tempo uma das primeiras grandes cidades às margens do rio Indo, no Sul da Ásia, e altera o ponto de partida de sua história urbana.
Pistas enterradas na muralha
Na base da muralha ocidental, tijolos de barro enterrados e preservados revelaram o sinal mais antigo e claro de que a construção urbana de Mohenjo-daro já havia começado.
A partir desse conjunto de evidências, a Diretoria-Geral de Antiguidades e Arqueologia de Sindh (DGAA) registrou uma primeira muralha erguida várias gerações antes do que se estimava.
Com isso, o início conhecido da cidade recua para antes do seu auge urbano mais famoso, oferecendo um intervalo mais longo para entender a sua ascensão.
Ainda assim, uma única estrutura não explica, sozinha, de que maneira Mohenjo-daro se expandiu; o restante da cidade ainda precisa aparecer com mais nitidez.
Uma cidade planejada
O traçado de ruas, quadras residenciais e plataformas elevadas indica que Mohenjo-daro não foi um vilarejo desordenado que simplesmente se espalhou com o tempo.
Em cerca de 240 hectares na província de Sindh, no sul do Paquistão, as ruínas do sítio reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO preservam uma das primeiras grandes cidades do Sul da Ásia.
No período de maior ocupação, aproximadamente 40.000 pessoas viviam ali, em bairros de tijolos organizados com um grau de ordem incomum para a época.
Um planejamento desse porte torna mais difícil tratar a data mais antiga da muralha como uma anomalia local, e não como parte de um processo urbano consistente.
A água corria por toda parte
No cotidiano, a água moldava a vida tanto quanto as muralhas, e o sistema hidráulico de Mohenjo-daro ainda parece surpreendentemente moderno.
Mais de 700 poços abasteciam casas, áreas de banho e canais de escoamento, levando água limpa para dentro e afastando resíduos.
Os construtores recorreram a tijolos cozidos, juntas bem ajustadas e pisos com inclinação para que a água suja escoasse, em vez de infiltrar e danificar as paredes.
Esse tipo de infraestrutura sugere regras compartilhadas, mão de obra especializada e supervisão cívica - não uma comunidade que “tropeçou” até se tornar cidade.
Crescimento em etapas
A expansão não terminou com a primeira barreira: o cercamento ocidental foi sendo alterado conforme Mohenjo-daro ganhava tamanho e complexidade.
Camadas posteriores indicam reconstruções ao longo dos séculos mais maduros da cidade, quando bairros mais densos e obras públicas maiores se consolidavam.
“As muralhas foram ampliadas e mantidas até cerca de 2200 a.C. e possivelmente por ainda mais tempo”, afirmou a DGAA na mesma declaração.
Ao ser observada ao longo do tempo, a muralha vira um indicador do crescimento urbano - e não apenas uma ruína marcante ao lado de um grande monte elevado no distrito ocidental.
Por que a cronologia importa
Durante anos, muitos arqueólogos situaram a ascensão de Mohenjo-daro por volta de 2500 a.C., quando seus espaços públicos mais monumentais se tornam mais visíveis.
A identificação de uma muralha importante um pouco mais antiga mostra que a cidade não surgiu de uma vez, já “pronta” e acabada.
Esse estágio anterior é chamado pelos arqueólogos de fase Kot Diji, um período de assentamentos do vale do Indo que antecede o auge urbano clássico.
Sob essa leitura, Mohenjo-daro parece menos uma chegada súbita e mais uma cidade que se formou gradualmente, construindo-se etapa por etapa.
O que ainda fica escondido
Desde o início das escavações, em 1922, apenas cerca de um terço das ruínas foi efetivamente investigado.
Uma parte importante do capítulo mais antigo da cidade permanece sob reconstruções posteriores, danos por salinização e um lençol freático persistentemente alto.
Mesmo assim, sondagens profundas sob a muralha encontraram cerâmicas mais antigas, sugerindo que o assentamento começou antes da primeira fortificação conhecida.
A profundidade soterrada abre espaço para novas surpresas e serve de alerta contra tomar a primeira muralha como o verdadeiro marco inicial da cidade.
Um fim ainda incerto
O abandono segue pouco esclarecido, e o encerramento de Mohenjo-daro entre 1800 e 1700 a.C. continua difícil de explicar.
Narrativas de invasão ou massacre reaparecem com frequência, mas as evidências de guerra organizada em escala ampla nas cidades do Indo permanecem limitadas.
Esqueletos dispersos em Mohenjo-daro não se encaixam bem na ideia de um único desastre final, o que enfraquece explicações de causa única.
Por isso, a data mais antiga da muralha ganha ainda mais peso: aqui, os começos estão mais claros do que os finais.
Seca em várias cidades
O clima hoje oferece a explicação geral mais forte para entender por que as grandes cidades do Indo foram se esvaziando em vez de se recuperar.
Um estudo de 2025 identificou quatro secas prolongadas que provavelmente comprimiram rios, áreas agrícolas e o abastecimento de alimentos nas cidades.
Como esses períodos secos duraram décadas, as comunidades tiveram tempo para se adaptar, mas encontraram menos condições para reconstruir o modo de vida urbano anterior.
Mesmo assim, essa hipótese não exclui política, doença e migração - apenas favorece um desgaste lento em vez de um colapso repentino.
Ruínas sob ameaça
Hoje, as ruínas enfrentam outra pressão: o lençol freático rico em sais e o clima degradam tijolos que antes estavam protegidos pelo soterramento.
Equipes de conservação precisam compreender o que existe em cada ponto, quando foi construído e quais áreas ainda suportariam novas escavações.
“Investigações futuras traçarão o plano da muralha da cidade ao redor do Monte da Estupa, a fim de tentar localizar portões de entrada”, disse a DGAA na mesma declaração.
Salvar Mohenjo-daro, agora, depende de tratar a datação também como ferramenta de preservação - e não apenas como uma linha do tempo acadêmica.
Uma história mais longa
Mohenjo-daro passa a indicar um desenvolvimento mais prolongado, no qual construção organizada, controle da água e coordenação social surgiram mais cedo do que se supunha.
Em contrapartida, essa trajetória ampliada torna o declínio ainda mais enigmático e eleva a urgência de proteger o que permanece enterrado.
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