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Geleira Perito Moreno entra em recuo acelerado e já recuou 790 metros desde 2019

Pessoa segurando foto e observando geleira cercada por montanhas e lago com blocos de gelo.

Um novo estudo concluiu que a Geleira Perito Moreno entrou numa etapa de recuo acelerado, com trechos da sua frente a recuarem cerca de 790 metros (2.600 pés) desde 2019.

Essa mudança indica a perda do suporte físico que manteve a geleira estabilizada durante décadas, abrindo caminho para um recuo continuado.

A geleira se solta

Na linha de frente da geleira, uma crista rochosa enterrada no fundo já tinha funcionado como uma espécie de travão para o gelo, mas está a perder eficácia à medida que a geleira afina.

Combinando medições de radar e levantamentos do fundo do lago, Moritz Koch, da Friedrich-Alexander University Erlangen-Nuremberg, associou diretamente o recuo recente ao momento em que a massa de gelo começou a desprender-se desse ponto de apoio.

Nas áreas em que a crista deixou de estabilizar o gelo, partes da frente já recuaram cerca de 790 metros (2.600 pés) em apenas alguns anos.

Se o afinamento prosseguir, a expectativa é que a geleira se descole por completo da crista e recue muito mais para montante.

Por que o gelo está a afinar

Nas proximidades do lago, a geleira passou de uma perda de cerca de 0,3 metro de altura por ano para algo em torno de 5,5 metros.

Isso é crucial porque o gelo mais fino flutua com maior facilidade em água profunda, e a flutuabilidade - o empuxo exercido pela água - começa a abrir fraturas.

À medida que a frente se eleva e se curva, o desprendimento de gelo para dentro da água pode aumentar rapidamente.

Em pouco tempo, o processo pode tornar-se autoalimentado, porque cada perda expõe ao lago ainda mais gelo vulnerável.

Recuo mais rápido na borda

A dinâmica de movimento perto da frente também mudou, o que importa porque gelo mais veloz tende a esticar e a romper com mais facilidade.

Os investigadores observaram aceleração nas porções mais baixas, enquanto as áreas mais a montante permaneceram mais estáveis - um padrão que sugere que o problema começou na extremidade.

Com o enfraquecimento do atrito na base, o gelo consegue deslizar mais depressa, abrir fendas mais largas e levar para a água um volume maior de gelo fraturado.

Por isso, o recuo recente não se parece com uma oscilação passageira num sistema que, no restante, seria estável.

Por que a geleira se manteve estável

Durante décadas, a Perito Moreno pareceu invulgarmente estável porque o vale se estreitava perto da frente e o fundo do lago se elevava sob ela.

Essa geometria sustentava a geleira por baixo e também pelas laterais, reduzindo a velocidade com que o lago conseguia avançar sobre o gelo.

Além disso, uma barreira submersa pouco profunda mantinha água mais fria e rica em sedimentos retida junto à frente, o que provavelmente diminuiu o derretimento em profundidade.

Essas vantagens naturais atrasaram o recuo, mas não conseguiriam proteger a geleira indefinidamente quando o próprio gelo começou a ficar mais fino.

Um ponto turístico

No sul da Argentina, no Parque Nacional Los Glaciares - um sítio reconhecido como Patrimônio Mundial - a geleira há muito tempo atrai visitantes pelas ruturas e pelo espetáculo do gelo.

O artigo relata que quase 800.000 bilhetes foram vendidos para o parque em 2023, destacando o quanto o turismo local acompanha de perto o comportamento do gelo.

As pessoas vão para ouvir o estalo e o estrondo de blocos a cair, mas colapsos mais intensos podem indicar instabilidade crescente, e não boa saúde da geleira.

Se a frente se afastar da península de forma definitiva, os famosos eventos de “represamento e rompimento” podem tornar-se mais raros ou desaparecer.

O aquecimento chega à geleira

A reputação antiga da Perito Moreno fez dela um exemplo frequente para quem dizia que o aquecimento global era exagerado.

Trabalhos mais recentes contrariam essa narrativa, ao mostrar que uma geleira pode parecer estável durante anos enquanto a tensão se acumula por baixo.

Um artigo de 2026 associou o recuo recente ao aquecimento atmosférico, ao afinamento do gelo e ao afastamento de uma moraina protetora.

Essa interpretação encaixa-se nas novas medições e ajuda a explicar por que a mudança ficou evidente depois de várias estações de degelo com calor intenso.

O que ainda é incerto

Os cientistas conseguem identificar com mais clareza a direção do processo do que cravar um cronograma exato.

O principal modelo apresentado no artigo avalia o que acontece se o afinamento atual continuar, em vez de apontar um ano específico.

Variações de neve, calor do verão, condições do lago e o movimento interno da própria geleira podem acelerar ou desacelerar a próxima fase.

Essa incerteza não reduz o alerta, porque todos os cenários testados indicam uma geleira menos segura do que antes.

Uma resposta tardia

Geleiras grandes costumam reagir devagar, porque o gelo espesso consegue “guardar” anos de desequilíbrio antes de a frente tornar a mudança evidente.

Entre 2000 e 2019, a frente da geleira quase não se deslocou; depois, o recuo acelerou com força a partir de 2020.

Numa entrevista posterior, descreveu-se que um trecho da geleira recuou aproximadamente 790 metros (2.600 pés) em quatro anos como um exemplo de resposta tardia.

“Agora vemos essa resposta muito tardia às mudanças climáticas, pois ela está lentamente, mas com certeza, se desprendendo desse ponto físico de ancoragem na parte central da geleira”, disse Koch.

Por que esta geleira importa

Do ponto de vista científico, a Perito Moreno é importante porque era uma resistente numa região que já vinha perdendo gelo rapidamente.

Quando até essa geleira começa a ceder, os investigadores ganham um teste mais claro de como a profundidade do lago e o formato do leito controlam o recuo.

Essas lições vão além de um único parque, já que muitas grandes geleiras entram em colapso em surtos depois de atravessar um limiar físico.

Compreender essa sequência pode melhorar as previsões para outras geleiras de água doce que hoje ainda parecem teimosamente estáveis.

Futuro agora incerto

O que antes parecia uma resiliência rara agora soa como uma contenção temporária, viabilizada por uma geologia incomum e por um vale que se estreita.

Se a grande rutura acontecer mais cedo ou mais tarde, a Perito Moreno já saiu da categoria de segurança que antes a definia.

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