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Ceftazidime-avibactam (CZA) pode perder eficácia contra Pseudomonas aeruginosa

Cientista jovem em laboratório analisando petri com colônia bacteriana verde usando luvas.

O antibiótico combinado ceftazidima-avibactam (CZA) é visto como uma das últimas alternativas para conter o microrganismo hospitalar comum Pseudomonas aeruginosa. Em geral, ele entra em cena quando outras opções já falharam - mas novas evidências indicam que essa estratégia talvez não dure tanto quanto se esperava.

A partir da análise de dois pacientes em estado crítico com infeções por P. aeruginosa, observou-se que a bactéria está a acumular mutações genéticas capazes de alterar as enzimas que produz. Essas mudanças, por sua vez, podem permitir que o microrganismo se defenda do ataque do CZA.

Um grupo de investigadores liderado por uma equipa da Universidade Tongji, na China, publicou na revista Microbiology Spectrum um novo artigo a descrever essas mutações e o que elas podem representar para o combate futuro a P. aeruginosa.

Há ainda um detalhe curioso nesta história: as mesmas adaptações que ajudam P. aeruginosa a rejeitar o CZA podem, ao mesmo tempo, torná-la mais sensível a medicamentos mais antigos.

Ceftazidima-avibactam (CZA) e o avanço da resistência em Pseudomonas aeruginosa

"Pseudomonas aeruginosa é um patógeno oportunista bem reconhecido e uma das principais causas de infeções associadas à assistência à saúde", escrevem os investigadores no artigo.

"A diminuição da eficácia das terapias antimicrobianas disponíveis intensificou a ameaça global representada pela P. aeruginosa resistente a carbapenêmicos (CRPA)."

Os carbapenêmicos são uma classe de antibióticos de amplo espectro e de uso mais “pesado”, contra a qual esta bactéria evoluiu mecanismos de bloqueio. É precisamente por isso que o CZA passou a ser necessário, num cenário que já se tornou uma preocupação de saúde pública com alcance mundial.

Agora, contudo, há indícios de que o CZA também pode perder desempenho - embora seja importante lembrar que, até ao momento, essas mutações foram observadas apenas em dois casos.

Mutações KPC-71 e KPC-78 e o papel das enzimas

Ao examinar as amostras de P. aeruginosa, os investigadores identificaram versões alteradas de enzimas conhecidas como KPC-71 e KPC-78. Em testes contra o CZA, essas variantes demonstraram maior resistência, essencialmente por neutralizarem as “defesas” incorporadas ao medicamento - isto é, o componente avibactam do ceftazidima-avibactam.

Segundo a equipa, essas enzimas mutantes somam forças com outras barreiras já presentes na bactéria, o que pode tornar o microrganismo significativamente mais difícil de eliminar.

"Embora as mutações específicas de KPC sejam os principais determinantes da resistência ao CZA, os nossos dados indicam que mecanismos intrínsecos de resistência em P. aeruginosa desempenham um papel sinérgico", escrevem os investigadores.

O “efeito gangorra” com carbapenêmicos (imipenem e meropenem)

Apesar do reforço da resistência ao CZA, as estirpes com essas mutações mostraram uma resistência enfraquecida quando o alvo foram os carbapenêmicos mais antigos - uma troca inesperada que abre alguma margem de esperança para o tratamento futuro.

Ainda serão necessárias mais investigações, mas é possível que medicamentos carbapenêmicos - incluindo os tipos imipenem e meropenem citados no artigo - voltem a apresentar eficácia contra P. aeruginosa em determinados contextos.

Por outro lado, existe o risco de a bactéria voltar a desenvolver resistência aos carbapenêmicos, regressando ainda mais robusta.

"Este efeito de 'gangorra' destaca a plasticidade da enzima KPC, mas também alerta os clínicos de que a suscetibilidade fenotípica aos carbapenêmicos nessas estirpes pode ser enganosa, pois mutações de reversão poderiam, teoricamente, restaurar a resistência aos carbapenêmicos sob pressão de imipenem ou meropenem", escrevem os investigadores.

Por que Pseudomonas aeruginosa é um desafio em ambiente hospitalar

A Pseudomonas aeruginosa está praticamente em toda parte no ambiente e pode permanecer em solos e em água. Porém, tende a representar perigo sobretudo para pessoas já fragilizadas por problemas de saúde - o que ajuda a explicar por que se torna tão problemática em hospitais.

A preocupação aumenta quando se considera o contato com equipamentos médicos (incluindo ventiladores e cateteres), onde a bactéria pode persistir e provocar infeções. Práticas rigorosas de higiene e limpeza contribuem para reduzir o risco de infeções por P. aeruginosa, mas evitá-las por completo é difícil.

ST463 na China e a necessidade de vigilância durante a terapia com CZA

Uma família específica de P. aeruginosa, conhecida como ST463, tem preocupado autoridades de saúde na China. As amostras avaliadas neste estudo pertencem a essa família, descrita como altamente infecciosa, associada a quadros graves e especialmente resistente a medicamentos - mesmo antes das novas mutações.

Tendo isso em vista, os investigadores defendem um nível mais alto de atenção para que a comunidade médica consiga antecipar futuras mudanças genéticas.

"Dada a ampla disseminação da linhagem ST463 na China, o surgimento dessas variantes destaca a necessidade urgente de os clínicos monitorarem o desenvolvimento de resistência ao CZA durante a terapia", escrevem os investigadores.

A pesquisa foi publicada na revista Microbiology Spectrum.

Este artigo passou por verificação de factos por Carly Cassella e foi editado por Michelle Starr. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos humanos. Se você encontrar algum erro, por favor, avise-nos.

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