Mesmo quando muitos apostavam numa estabilização, a economia francesa surpreendeu negativamente e entrou no vermelho: o PIB veio abaixo de todas as projeções. Em meio a uma crise energética global que parece fora de controle, o alerta acende e aumenta o temor sobre o que pode acontecer nos próximos meses.
Foi uma sexta-feira amarga para os números da França. O Insee divulgou os dados mais recentes e o diagnóstico é direto: o motor da economia do país está perdendo força.
No 1º trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto (PIB), indicador que mede o total de riqueza gerada no país, caiu 0,1%, enquanto os analistas esperavam um resultado estável de 0,0%. Embora a variação pareça pequena, ela representa uma interrupção brusca após um período de crescimento já fraco.
Na prática, a França está produzindo menos - e essa desaceleração tem duas causas principais atuando ao mesmo tempo. De um lado, empresas reduzem seus investimentos, com destaque para o setor da construção. Do outro, o consumo total das famílias cede levemente: os franceses começam a segurar os gastos.
A inflação volta a acelerar
Depois de um breve alívio, a inflação ganha velocidade novamente e chega a +2,4% em 12 meses em maio. Esse movimento é impulsionado pela disparada dos custos de energia, em +16,8%, puxados neste mês pelas tarifas do gás.
Com isso, o poder de compra das famílias encolhe. Os reajustes salariais negociados no começo do ano, em média de +1,7%, já não acompanham o ritmo. Em abril, a resposta veio no orçamento doméstico: os gastos com bens caíram 0,5%. Se a alimentação não é o principal alvo de cortes para manter a geladeira abastecida, em contrapartida diminuem compras como carros usados e móveis.
Em vez de consumir, os franceses passam a priorizar a proteção do dinheiro: a taxa de poupança sobe para um patamar recorde de 17,9%.
Pouca ou nenhuma margem de manobra
Os indicadores fracos refletem diretamente o cenário externo e o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã. A alta global dos preços de energia decorrente disso pressiona as empresas, que ficam sufocadas, e as margens desabam para 31,7%, reduzindo a capacidade de conceder aumentos salariais.
Com isso, a França entra numa armadilha, chegando a esta crise mais vulnerável em duas frentes, sem ter assimilado totalmente o choque inflacionário de 2022. Para piorar, o governo tem pouco espaço de reação. Enquanto Espanha ou Alemanha reduzem impostos, o caixa francês está no limite: as receitas diminuem e o déficit público derrapa para 5,1% do PIB.
Sem margem fiscal para oferecer auxílios como cheques de energia, o governo acaba restrito a assistir à escalada de preços. Para a população, a perspectiva é pouco animadora: sem a reabertura das “torneiras” energéticas globais, os próximos meses tendem a ser particularmente difíceis para o bolso.
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