O diabetes gestacional é uma alteração marcada pela elevação da glicose no sangue ao longo da gravidez, em geral reconhecida a partir do segundo trimestre. Isso acontece porque as mudanças hormonais típicas da gestação podem diminuir a eficácia da insulina no organismo, tornando o controlo da glicemia mais difícil. Mesmo exigindo vigilância e seguimento médico, costuma ser uma condição manejável com cuidados no dia a dia - sobretudo com uma alimentação equilibrada.
“Apesar do diagnóstico frequentemente causar preocupação, o tratamento vai muito além da simples exclusão de alimentos ou da ideia equivocada de ‘fazer dieta’ durante a gestação. Como a gravidez não é um momento para dietas hipocalóricas ou restritivas, porque isso pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento do feto, o foco deve estar na qualidade da alimentação”, explica a nutróloga Dra. Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).
Nesse cenário, a organização alimentar torna-se uma das estratégias mais importantes para manter o diabetes gestacional sob controlo. “No diabetes gestacional, a dieta deve priorizar alimentos com baixo índice glicêmico, fracionar carboidratos ao longo do dia, evitar picos glicêmicos e manter o ganho de peso adequado. A terapia nutricional é a primeira linha de tratamento”, explica o ginecologista e obstetra Dr. Nélio Veiga Junior, mestre e doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP).
Diagnóstico do diabetes gestacional
Pelos critérios actuais, o diagnóstico de diabetes gestacional é confirmado com o teste oral de tolerância à glicose, feito entre a 24ª e a 28ª semana de gestação. Considera-se suficiente para fechar o diagnóstico encontrar glicemia em jejum igual ou acima de 92 mg/dL, glicemia de 1 hora acima de 180 mg/dL ou glicemia de 2 horas acima de 153 mg/dL.
O Dr. Nélio Veiga Junior chama a atenção para a relação estreita entre obesidade e Diabetes Mellitus Gestacional (DMG). “Mulheres obesas têm risco duas a quatro vezes maior de desenvolver DMG. Isso se deve à resistência insulínica pré-existente, exacerbada pelas alterações hormonais da gravidez”, comenta.
Alimentos que ajudam no controle da glicemia
De acordo com a Dra. Marcella Garcez, manter uma alimentação equilibrada, diversificada e baseada em alimentos o mais naturais possível favorece a redução de picos glicêmicos e melhora a forma como o corpo responde à insulina - um hormônio que passa por mudanças fisiológicas durante a gestação.
“O que orientamos é organizar melhor o prato, fracionar as refeições ao longo do dia e reduzir o consumo de ultraprocessados, açúcares simples e farinhas refinadas, sem que isso signifique comer menos, mas comer melhor”, reforça a nutróloga.
Como prioridade, a médica aponta o aumento do consumo de fibras. “As fibras retardam a absorção da glicose e ajudam a manter a glicemia mais estável ao longo do dia”, explica. Na prática, ela recomenda incluir com regularidade:
- Verduras e legumes variados: brócolis, abobrinha, cenoura, folhas verdes;
- Leguminosas: feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, ervilha;
- Sementes: aveia, cevada, chia e linhaça;
- Frutas inteiras, com casca quando possível: maçã, pera, ameixa e frutas vermelhas.
A Dra. Marcella Garcez também destaca que as frutas não se resumem ao teor de carboidratos: “É fundamental pontuar que, além das fibras, as frutas oferecem uma série de fitoquímicos (compostos bioativos naturais responsáveis por cores, aromas e sabores), que exercem efeitos metabólicos relevantes, especialmente no controle da glicemia, algo fundamental no diabetes gestacional”, afirma.
Segundo ela, compostos bioativos - como flavonoides, antocianinas e catequinas - podem ajudar a tornar mais lenta a digestão e a absorção intestinal de carboidratos. Com isso, colaboram para controlar a glicose no sangue após as refeições e para evitar aumentos abruptos da glicemia.
“Além disso, os fitoquímicos presentes nas frutas têm ação antioxidante e anti-inflamatória, o que contribui para melhorar a sensibilidade à insulina, especialmente em um contexto de resistência insulínica induzida pelos hormônios da gravidez”, explica.
Dessa forma, a ideia de que fruta “atrapalha” é um mito. “Quando consumidas inteiras, com fibras e fitoquímicos preservados, as frutas têm um comportamento metabólico muito diferente dos açúcares isolados ou de sucos. O conjunto de fibras e fitoquímicos ajuda a modular a resposta glicêmica, especialmente quando a fruta é combinada com proteínas ou gorduras”, destaca.
Proteínas e gorduras boas na alimentação
Para ajudar a reduzir picos glicêmicos, a proteína também tem um papel relevante. “Ela reduz a velocidade de digestão dos carboidratos e aumenta a saciedade, sem impacto negativo para o feto, desde que sejam consumidas sem exagero. Ovos, carnes magras, frango e peixes bem cozidos, além de leite, iogurte natural e queijos podem ajudar”, explica a Dra. Marcella Garcez.
Além disso, as gorduras saudáveis devem fazer parte do plano alimentar no diabetes gestacional. “Já as boas fontes de gordura, como azeite de oliva, abacate, oleaginosas (castanhas, nozes e amêndoas) e sementes (chia, linhaça e gergelim), retardam o esvaziamento gástrico e contribuem para uma resposta glicêmica mais estável”, completa.
Controle da doença reduz riscos para mãe e bebê
Na perspectiva obstétrica, manter o diabetes gestacional e a obesidade devidamente controlados é decisivo para diminuir o risco de complicações como macrossomia fetal, parto prematuro, sofrimento fetal e maior probabilidade de cesárea.
“A exposição intrauterina a um ambiente obesogênico também está relacionada ao aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica na vida adulta da criança, caracterizando o que se chama de ‘programação fetal’”, alerta o Dr. Nélio Veiga Junior, que acrescenta: “Uma alimentação bem orientada não só contribui para uma gravidez mais segura, como também impacta diretamente a saúde do bebê a curto e longo prazo”.
Por Maria Paula Amoroso
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