Uma superfície totalmente coberta por poeira lunar pode parecer impecavelmente limpa. As partículas são tão minúsculas que não aparecem a olho nu - um astronauta poderia vestir o traje numa antecâmara contaminada sem perceber que o pó já está se infiltrando no equipamento.
A NASA sabe que a poeira da Lua faz mal desde que as tripulações do programa Apollo voltaram espirrando.
Mesmo assim, os engenheiros ainda não compreendiam por completo como, na gravidade real do satélite, esse material se desloca e se espalha. Um teste recente com foguete ajudou a virar essa página.
Por que a poeira da Lua é perigosa
À primeira vista, a película fina que recobre a superfície lunar parece macia, quase como farinha bem nivelada. Basta observar com mais atenção para a impressão mudar.
Cada grão é irregular, pontiagudo e cortante. Ele foi esculpido por bilhões de anos de impactos de meteoritos, sem nunca passar pelo “polimento” de vento ou água.
É justamente essa aspereza que torna o material perigoso. A poeira lunar é capaz de riscar viseiras, marcar lentes e, quando inalada, ferir o tecido pulmonar.
Quando os astronautas do Apollo levaram poeira para dentro do módulo, eles passaram a espirrar e tiveram dor de garganta - eles chamaram isso de “febre do feno lunar”. Ensaios de laboratório com grãos simulados depois mostraram que até nove em cada dez células do pulmão expostas a essas partículas podem morrer.
E o problema não fica restrito ao corpo humano. Se esse pó se deposita sobre um painel solar, a energia disponível diminui. Se ele se acumula em um radiador térmico, os equipamentos começam a superaquecer.
Além disso, não é algo que se remove com facilidade - e é por isso que “manter a casa em ordem” na Lua pode ser tão implacável.
Poeira que não assenta
Na Terra, o ar e a gravidade acabam fazendo a poeira descer e permanecer no lugar. Na Lua, não há nenhum dos dois. Como quase não existe atmosfera, os grãos levantados pela chegada de uma nave podem ficar suspensos por muito mais tempo do que ficariam aqui.
Há ainda um segundo fator, mais incomum. O regolito - nome técnico para esse material fragmentado da superfície - apresenta carga elétrica e reage a ímãs, o que faz com que ele grude em quase tudo o que toca.
A luz do Sol parece agravar a situação: ao carregar eletricamente os grãos, ela pode fazê-los se repelirem e se desprenderem, levantando por conta própria.
Esse comportamento de flutuar e aderir é o que a NASA precisa decifrar antes de enviar pessoas de volta para estadias longas.
Kristen John, líder de integração técnica da Iniciativa de Inovação da Superfície Lunar da agência, no Centro Espacial Johnson (JSC) da NASA, já destacou que muitos grãos são menores do que o olho consegue perceber. Uma superfície contaminada pode ser, visualmente, impossível de distinguir de uma limpa.
Estudando a poeira na gravidade lunar
Para entender como esse pó se movimenta, é necessário reproduzir a gravidade da Lua, que é de cerca de um sexto da gravidade da Terra.
Um teste de voo recente conseguiu fazer isso em um foguete suborbital construído pela Origem Azul, marcando a primeira vez que um foguete desse tipo simulou a gravidade lunar durante o próprio voo.
Sete experimentos seguiram a bordo, cada um pensado para observar como a poeira reage sob essa força menor.
Eles vieram do programa Desenvolvimento Transformador da NASA, o setor da agência que cria e coloca à prova tecnologias em estágio inicial antes de elas ganharem espaço em uma missão real.
Até então, os estudos precisavam se contentar com janelas curtas de gravidade reduzida - voos parabólicos de aeronaves ou o ambiente de microgravidade da estação espacial - e nenhum desses cenários sustenta por muito tempo um nível de gravidade equivalente ao da Lua.
Com esse voo, os pesquisadores passaram a ter uma visão mais nítida do que os grãos realmente fazem.
Investigação de alta tecnologia
Um dos experimentos focou no instante em que a poeira “pega carona” para dentro de ambientes fechados. Um robô pequeno, apelidado de TecidoBot, foi programado para reproduzir os movimentos de um astronauta ao tirar um traje espacial empoeirado - procedimento que os engenheiros chamam de desparamentação.
Enquanto o tecido se dobrava e esticava, um laser iluminava os grãos que escapavam, e sensores contabilizavam as partículas e mediam seu tamanho.
Um segundo dispositivo foi direto ao ponto do problema da flutuação. Ele aplicou luz ultravioleta a uma amostra de poeira até que os grãos acumulassem carga suficiente para se empurrarem mutuamente e se soltarem.
As partículas se elevaram da superfície e subiram atravessando uma “folha” de luz laser, enquanto uma câmara acompanhava cada grão.
Um terceiro arranjo colocou solo simulado em recipientes selados, comprimiu o material durante o lançamento e, depois, permitiu que ele se expandisse quando o foguete atingiu a gravidade lunar. Câmaras de alta velocidade registraram cada deslocamento e cada tombamento.
Essas medições alimentam os modelos de que os engenheiros dependem para prever como o pó vai se comportar na superfície lunar de verdade.
A poeira lunar ataca os equipamentos
A razão para tanta atenção é simples: a capacidade de destruição desse pó.
Uma película fina sobre um painel solar reduz silenciosamente a eletricidade da qual uma base depende, e na Lua não existe uma substituição fácil para energia perdida. Já uma camada sobre um radiador prende o calor que o sistema foi projetado para dissipar.
Os danos chegam até os componentes que mantêm pessoas vivas. Vedações e juntas se desgastam à medida que grãos afiados penetram nas articulações. Os trajes ficam rígidos. Lentes embaçam. Uma viseira antes transparente fica opaca, deixando os astronautas semicerrando os olhos em um ambiente que já é difícil de enxergar.
Reduzir a poeira afeta praticamente todos os planos da NASA para a superfície lunar, desde a extração de recursos locais até a circulação de veículos exploradores.
Se houver um entendimento melhor de como esse pó se move e se agarra às superfícies, quase todo esse hardware pode acabar sendo projetado de outra forma.
Um estudo recente inclusive sugere que a poeira talvez seja um pouco menos tóxica para os pulmões do que se temia no passado. O que ela faz com os equipamentos, porém, não está em debate.
Preparando-se para futuros empoeirados
O voo deu aos pesquisadores a primeira oportunidade de observar de perto, em tempo real, como os grãos lunares se dispersam e depois se acomodam sob a gravidade da Lua - em vez de forçar a ciência a depender de dados limitados.
Antes desse teste, ninguém havia registrado a elevação e o espalhamento de poeira em um ambiente de baixa gravidade sustentada, ajustado para corresponder à da Lua.
O que sair dessas gravações pode orientar escolhas concretas de projeto. Engenheiros podem calibrar antecâmaras para remover a poeira que astronautas carregam para dentro, aplicar revestimentos que repelem grãos eletricamente carregados e criar modelos mais inteligentes para prever onde o pó vai cair.
A pesquisa contínua sobre como a poeira lunar afeta o corpo aumenta a urgência de evitar que ela entre nas cabines.
A NASA mira uma presença humana duradoura na Lua até 2040. Erguer uma base capaz de aguentar décadas de abrasão começa por compreender a abrasão em si.
O mesmo pó que fez astronautas do Apollo espirrarem há meio século, enfim, está sendo analisado nos próprios termos.
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