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Ferrari Luce: minha visão sobre o primeiro Ferrari 100% elétrico

Carro esportivo vermelho Ferrari Luce EV em exposição em showroom moderno.

Não sou contra carros elétricos, não considero um Ferrari elétrico uma heresia e, não, não acredito que “Enzo Ferrari esteja se revirando no túmulo”. Desculpem este preâmbulo, mas torço para que os guerreiros do teclado tenham chegado até aqui antes de deixar qualquer comentário. Agora, sim: a minha opinião.

O anúncio do nome e do interior do primeiro Ferrari 100% elétrico aconteceu bem longe de Maranello. Ele se chama Luce e foi revelado em São Francisco, no coração da Califórnia, num cenário que remete diretamente ao ecossistema onde a cultura tecnológica contemporânea ganhou forma. Não foi coincidência - foi intencional.

Às vésperas da sua primeira incursão totalmente elétrica, a Ferrari quer colocar no mercado algo que continue despertando desejo, mesmo sem um V12 debaixo do capô. E essa travessia vem se mostrando ingrata para quem vive de vender carros de sonho. Não é opinião: é fato.

Muitas ideias para poucos clientes

Diversas marcas de esportivos e supercarros já tentaram seguir esse rumo. De Porsche a Rimac, há casos de elétricos postergados ou encerrados, resultados abaixo do esperado e contas de muitos milhões para fechar - com pouco dinheiro entrando.

Mais recentemente, a Lamborghini informou que cancelou o seu SUV 100% elétrico. A justificativa foi um interesse que a marca descreve como “quase zero” por parte dos clientes.

A Alfa Romeo também abandonou a proposta de criar uma versão elétrica do 33 Stradale, porque apenas um cliente demonstrou interesse. Enquanto isso, a versão a combustão do modelo - que custa 1,7 milhões de euros e é limitada a 33 unidades - esgotou, e ainda houve 20 compradores que ficaram de fora por não conseguirem uma alocação.

A própria Ferrari, no dia em que apresentou sua estratégia de eletrificação, optou por avançar com apenas um modelo, e não dois, como se imaginava no início. E a ocasião não terminou da melhor maneira: acionistas mostraram cartão vermelho a um anúncio feito “com o pé atrás”.

Talvez tenha sido um episódio mal lido e a reação tenha passado do ponto. Até porque o primeiro resultado dessa empreitada deixou muita gente boquiaberta, inclusive os mais céticos. Só que, para gerar o tão necessário “efeito uau”, a Ferrari precisou buscar apoio fora da Itália - e ainda bem.

Os melhores dos melhores

Para idealizar e desenhar tanto o interior quanto a interface, a Ferrari escolheu a LoveFrom, estúdio criativo fundado por Sir Jony Ive e Marc Newson.

Ive está longe de ser um nome qualquer nessa história. Ele foi Diretor de Design da Apple por mais de duas décadas, até 2019, e comandou o desenvolvimento de alguns dos objetos mais influentes do nosso tempo - do iMac ao MacBook Air (o notebook mais vendido do mundo), passando pelo Apple Watch e, claro, o iPhone (hoje, o smartphone mais vendido do mundo).

Num momento em que a maioria dos fabricantes transformou o interior do carro numa espécie de extensão do smartphone, o primeiro Ferrari elétrico escolhe, de propósito, uma trilha diferente.

Sim, existem telas, mas elas não ditam as regras da experiência. Aliás, em entrevista à Autocar durante o evento, Sir Jony Ive chegou a dizer que as telas têm prejudicado a experiência ao volante. Por isso, entram controles físicos com função direta, botões realmente mecânicos que prometem uma resistência natural, instrumentos analógicos e até o luxo do toque frio do alumínio.

É exatamente isso que a equipe de design da Ferrari, liderada por Flavio Manzoni, desenvolveu em parceria com esse estúdio externo nos últimos cinco anos - sem que ninguém desconfiasse.

Dar com uma mão o que se tira com a outra

O V12 saiu de cena e, ainda assim, a promessa é de uma vivência mecânica e sensorial - agora acompanhada por quatro motores elétricos. Contradição? Talvez. Inviável? Não me parece; afinal, estamos falando de Ferrari. Quem insiste que esse nome não tem peso, mesmo gravado num carro elétrico, já não está debatendo automóveis: está apenas sendo fundamentalista.

O painel de instrumentos do Ferrari Luce usa telas OLED em camadas, com sensação de profundidade visual, mas também incorpora ponteiros físicos de verdade. A ideia é dar brilho ao interior sem depender apenas do brilho das telas OLED - para isso, os smartphones já bastam.

É o tipo de escolha que a Porsche deveria ter feito no 911 (992.2) e não fez. Aqui, a Ferrari cria um precedente que espero que reverbere em Stuttgart: dizer não à digitalização total para entregar, a quem quer algo especial (e aceita pagar por isso), justamente o que os carros mais comuns deixaram para trás.

Com tudo o que está acontecendo na Volkswagen, com a volta dos botões, espero que a Porsche observe isso com atenção.

No Ferrari Luce, o console central foi concebido como um elemento ativo - uma tela que pode ser orientada e compartilhada com o passageiro. Há também um relógio com ponteiros analógicos capaz de assumir diferentes funções e uma chave com tecnologia e-ink. Ou seja: uma chave que, depois de encaixar magneticamente no console, muda de cor.

Dessa forma, a marca espera que o ato de ligar um Ferrari continue rendendo assunto, só que agora voltado a quem aprecia essas tecnologias. Eu não discordo dessa direção, porque num mundo em que motores a combustão não cantam - e muito menos existem melodias V12 - a Ferrari precisa encontrar outros argumentos para persuadir.

Algumas especificações técnicas

Do lado técnico, dá para esperar uma arquitetura de 800 V e carga rápida de até 350 kW. Fala-se numa bateria de “grande capacidade” e numa configuração com quatro motores elétricos, com potência combinada acima de 1000 cv.

A marca também menciona um centro de gravidade significativamente mais baixo do que o de um equivalente a combustão (explicado pela posição e pela distribuição das baterias, como ocorre na maioria dos elétricos), além de soluções de suspensão ativa e direção nas quatro rodas.

O que ainda não está claro é justamente aquilo em que eu deposito a maior esperança para este modelo. Porque, em especificações técnicas, será difícil surpreender: potência e motores 100% elétricos são, como todos sabemos, algo democrático (ao contrário de um V12).

Eu espero um elétrico interessante de dirigir, capaz de derrubar preconceitos, que vá mais longe em emoção do que os demais. Eu talvez não esperasse um interior como este, mas sem dúvida espero que, ao volante, ele seja um Ferrari - com tudo o que esse peso representa. E, nesse ponto, existem bons sinais.

Som do motor? Sim e sem alto-falantes

Outro assunto delicado que a Ferrari resolveu encarar de modo diferente foi o som do motor. Em vez de apelar a simulações artificiais de motores a combustão, a marca afirma estar trabalhando numa assinatura sonora construída a partir de vibrações reais do sistema de tração, amplificadas e tratadas como parte da experiência. Mantendo a aposta, eu me arrisco a antecipar que este Ferrari terá “o motor elétrico com o melhor som de todos os tempos”.

Por enquanto, a marca de Maranello decidiu começar pelo interior - e não é difícil entender o motivo. Num Ferrari elétrico, o habitáculo precisa entregar uma experiência inédita dentro da marca, algo que surpreenda o motorista tanto quanto o exterior, já que ele não será entretido por um motor a combustão.

Na minha visão, o cuidado que a Ferrari está colocando no interior do Luce - com um resultado excelente - é exatamente a força que Maranello precisava para lançar o supercarro elétrico mais importante de sempre. Porque, mais importante do que ser elétrico, é ser um Ferrari.

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